Recensões e testemunhos
Sobre "Os Idiotas"
Sobre "Hotel do Norte"
O núcleo temporal da história é 1975 (continuando para o ano seguinte), com a presença no Hotel do Norte de cerca de centena e meia de homens e mulheres vindos das antigas colónias portuguesas, agora independentes – os chamados "retornados". Mas a narrativa desloca-se alternadamente para 2008 e para 1941 (e, apenas uma vez, para 1970), num exercício de apelo à perspicácia do leitor para ir percebendo os pontos de ligação entre eles. Há uma história que é contada, há pessoas, cada uma delas com a sua complexidade, há um cenário que as congrega. Há depois momentos que nos trazem luz a situações que poderiam ser de outro qualquer contexto e passam despercebidas: o racismo quase inconsciente a aflorar de raivas sufocadas; o desequilíbrio nas relações entre homem e mulher, com suas pequenas e grandes violências; a hipocrisia banalizada.
É um belíssimo livro, que se lê com muito gosto, mas que exige disponibilidade para pensar.»
Sobre "A Origem do Ódio"
«Seria fácil nomear o edifício que dá nome ao livro como a personagem principal, pois é a presença permanente em todo o enredo, nos vários tempos distintos em que se desenrola. Mas não: há uma sobreposição das personagens ao espaço, não são apenas figuras a movimentarem-se num cenário – antes pelo contrário, cada uma delas […] são pessoas a quem podemos vislumbrar o mais fundo do perfil psicológico, as motivações, as dúvidas, as angústias, os sonhos.
«“[…] uma novela de 92 páginas sobre essa condição universal que é o ressentimento amoroso de alguém que não aceita o final de uma relação. Não, o tom e o estilo nada têm de auto-ajuda travestida de ficção. É cru, faz-se de aforismos pessimistas sobre a natureza humana e fixa-se em pormenores de um dirty realism muito cá da casa, tendo como referência ocasional o “patético protagonista” de “Bunny Munro”, romance do senhor Nick Cave, praticante da ancestral arte da masturbação mesmo nas imediações do caixão da mulher.
«As reflexões, com referências artísticas (literárias, musicais) do narrador despeitado, ressentido e vingativo, intelectualizam-no. É a fala de um homem feito de desilusões maturadas pela vida e pelas leituras. Mas que desconfia do seu talento para desfilar o enredo de sua mistura de ilusão e desilusão amorosa: “Sou um advogado que escreve como um engenheiro e argui na barra como um feirante (....), como posso eu falar de amor?”. Mas que é capaz de passagens bem sacadas sobre a natureza humana: “Os homens e as mulheres seriam certamente muito mais infelizes se não tivessem o abrigo da noite para cumprirem os seus ritos proscritos, se a luz do dia fosse permanente e com ela permanente a possibilidade de serem vistos”».
Sobre "Villa Juliana"
«É um belíssimo romance. Se eu pudesse escolher o que, para mim, é o ponto mais forte seria a forma como conseguiu escrever, num romance em que a memória é uma categoria narrativa, um texto profundamente contemporâneo.»